Dez artistas, dois lados e um rótulo que não se sustenta. Quem jura ficar fora da política e acaba falando dela do palco?
Crédito da Foto: Reprodução/YouTube
No estádio do MetLife, em Nova Jersey, Macklemore gritou “Palestina livre” no show de abertura da turnê de Ed Sheeran e saiu do elenco. Quinze dias depois, Sheeran se explicou à plateia da Filadélfia. Em outubro, em Las Vegas, James Hetfield avisou que o Metallica não estava ali para influenciar ninguém. Era 2026, e quem prefere o artista calado repetia que ninguém paga ingresso para ouvir opinião.
As cenas respondem à mesma pergunta, antiga no rock: o artista deve falar de política, usando o direito que tem como cidadão antes de ser músico, ou apenas tocar e ignorar que ela existe? Dez nomes mostram como cada um responde, e o rótulo que menos se sustenta é o de Ed Sheeran, que diz nunca ter querido ser ativista e, na mesma fala, condenou o que acontece em Gaza.
São cinco artistas de cada lado, em ordem alternada, escolhidos pelo que deixaram registrado em fala, show ou disco. Na fila estão um cantor que diz não ter posição e condena uma guerra, um baixista que manda os colegas calarem e já opinou sobre embaixada, e um roqueiro que concorreu à Presidência de brincadeira e hoje acha a mistura um erro. A contagem começa por quem jura não ter lado.
Apolítico | Ed Sheeran: “Nunca quis ser ativista” (2026)
19 de setembro de 2026 · show da turnê, na Filadélfia
Do palco de um estádio da Filadélfia, Sheeran falou do rapper que tinha saído da turnê duas semanas antes. Disse que nunca quis ser um músico ativista e que se via “no meio de uma discussão importante e apaixonada sobre liberdade de expressão”. No mesmo discurso, chamou o que acontece em Gaza de catastrófico, injustificável e desproporcional.
A guerra já tinha aparecido na carreira dele. Em abril de 2022, dois meses depois da invasão russa, ele lançou o clipe de 2step, gravado em Kiev e dedicado à Ucrânia. Sobre o corte do rapper, escreveu nas redes que a decisão foi da promotora da turnê. O cortado, por sua vez, tinha catorze anos de canções que explicavam o grito.
Politizado | Macklemore: “Hind’s Hall” (2024)
4 de setembro de 2026 · show no estádio do MetLife, em Nova Jersey
No MetLife, o rapper de Seattle gritou “Palestina livre” e emendou Hind’s Hall, canção de 2024 que leva o nome de um prédio da Universidade Columbia ocupado por estudantes em protesto pela Palestina. A promotora o tirou da turnê, segundo a Variety.
O grito tinha história. Em 2012, Same Love, em defesa do casamento igualitário, destinou a renda do compacto a uma ONG da causa. Em 2016, White Privilege II, de quase nove minutos, tratou de violência policial e racismo e saiu de graça no iTunes. O MetLife só confirmou o que os discos diziam desde 2012. Cinco semanas depois, num palco de Las Vegas, outro astro avisou que ali não haveria recado político.
Apolítico | James Hetfield: “A agenda é amor” (2026)
10 de outubro de 2026 · Metallica no Sphere, em Las Vegas
No palco do Sphere, a arena em forma de esfera de Las Vegas, Hetfield fez um aviso à plateia. “O Metallica não está aqui, como outros artistas, para influenciar vocês com a conversa fiada deles.” A banda, completou, estava ali para esquecer o resto do mundo, e a agenda era amor, energia e música pesada.
O aviso esbarra na história do gênero. Em 1970, o Black Sabbath, que ajudou a inventar o heavy metal, cantou em War Pigs contra os generais e os políticos que mandam jovens para a guerra. Em 1988, o próprio Metallica gravou One, cujo clipe, o primeiro da banda, usa cenas de um filme de 1971 sobre um soldado que volta da Primeira Guerra Mundial sem braços, pernas e rosto. Quatro anos antes de One, um roqueiro de Nova Jersey ouviu o próprio nome num comício presidencial e respondeu do palco.
Politizado | Bruce Springsteen: “O presidente e Nebraska” (1984)
Setembro de 1984 · comício em Nova Jersey e resposta num show em Pittsburgh
Num comício em Hammonton, Nova Jersey, o presidente que disputava a reeleição citou Bruce Springsteen como prova de que a esperança do país morava nas canções do cantor. Poucos dias depois, num show em Pittsburgh, Springsteen perguntou à plateia qual seria o disco favorito do presidente, duvidou que fosse Nebraska e emendou uma canção desse álbum sobre gente sem emprego.
Em 31 de março de 2026, a turnê nova abriu em Minneapolis com o cantor chamando Donald Trump de presidente que não aguenta a verdade. Tom Morello, guitarrista e ativista, subiu ao palco com ele em todos os shows. Quarenta e dois anos depois, o presidente era outro, e a resposta continuava vindo do palco. Três semanas antes dessa estreia, um baixista da mesma geração tinha dado aos colegas o conselho contrário.
Apolítico | Gene Simmons: “Faça sua arte e cale a boca” (2026)
10 de março de 2026 · entrevista ao TMZ, aos 76 anos
Diante da câmera do TMZ, Simmons mandou os colegas que falam de política fazerem a arte e calarem a boca. “Ninguém está interessado nas suas opiniões, e isso me inclui”, completou Gene Simmons, baixista de uma das bandas de maquiagem mais famosas do rock.
Oito anos antes, era ele quem opinava. Nascido em Haifa, em Israel, Simmons falou à CNBC, em maio de 2018, sobre a mudança da embaixada americana para Jerusalém. O silêncio que ele cobra dos colegas não aparece naquela entrevista. Um guitarrista que fez carreira desobedecendo a esse tipo de conselho foi parar, em 2008, diante da polícia de St. Paul.
Politizado | Tom Morello: “Três acordes e a verdade” (2008)
2 de setembro de 2008 · protesto na convenção republicana, em St. Paul
Em St. Paul, durante a convenção do Partido Republicano, a polícia mandou encerrar o show em que Morello tocava. Ele terminou a apresentação cantando sem acompanhamento, no microfone de um segurança.
Àquela altura, Morello já fazia música política havia dezessete anos. Nos anos 1990, fez do Rage Against the Machine uma das bandas mais políticas do rock. Depois, ao ver Springsteen cantar The Ghost of Tom Joad, criou um alter ego de violão e canção de protesto e descobriu, como contou a uma revista americana em 2008, que “três acordes e a verdade podem pesar mais que uma parede de amplificadores”. Do outro lado da fila está um roqueiro que, em 1972, se candidatou à Presidência sem querer ganhar.
Apolítico | Alice Cooper: “Elected” (1972)
1972 · single com campanha eleitoral de mentira
Em 1972, Alice Cooper se lançou candidato à Presidência dos Estados Unidos sem nenhuma intenção de ganhar. A campanha de mentira acompanhou o single Elected, e a piada colou nele pelas décadas seguintes.
Cinquenta anos depois, em fevereiro de 2022, ele falou sério sobre o assunto. “Não acho que rock and roll e política devam dividir a mesma cama”, disse a um jornal americano. Para Cooper, a política só entra no rock como piada. Uma roqueira que começou na mesma década pensa o contrário.
Politizada | Joan Jett: “Cale a boca e cante” (2026)
26 de fevereiro de 2026 · podcast do Hall da Fama do Rock
Num podcast do Hall da Fama do Rock, Joan Jett respondeu a quem pede que o artista cale a boca e cante. Disse que isso nunca foi o que músicos e artistas fazem, desde muito tempo, e que ela mesma não consegue se calar.
Oito anos antes, em 6 de novembro de 2018, dia das eleições legislativas americanas, ela tinha lançado o single Fresh Start. No Journey, a discordância sobre política foi parar nas mãos de advogados.
Apolítico | Neal Schon: “Por que ser vermelho?” (2022)
Dezembro de 2022 · notificação jurídica ao tecladista do Journey
Em novembro de 2022, o tecladista do Journey, apoiador de Trump, se apresentou em Mar-a-Lago, a residência do então ex-presidente na Flórida. Um mês depois, Neal Schon, guitarrista e cofundador da banda, acionou os advogados contra o colega.
O argumento era a regra da banda de ficar fora da política. Para Schon, a música é de todo mundo, e escolher um lado custa metade dos fãs. “Por que ser vermelho? Por que ser azul? Por que ser verde?”, perguntou. Graham Nash passou a vida escolhendo uma cor.
Politizado | Graham Nash: “Chicago” (1971)
1971 · primeiro single solo
Em agosto de 1968, a polícia de Chicago espancou manifestantes contra a guerra durante a convenção do Partido Democrata, e a televisão mostrou tudo. Três anos depois, Nash fez do episódio e do julgamento dos sete acusados de incitar o tumulto o seu primeiro single solo, Chicago. Um ano antes, Ohio, gravada pelo grupo que ele integrava, tinha tratado da morte de quatro estudantes pela Guarda Nacional na Universidade Estadual de Kent.
A regra veio de Nina Simone. Em entrevista à Far Out publicada em julho de 2025, Nash contou que pensa todo dia numa frase da cantora. “Todo artista, seja compositor, pianista, escultor ou pintor, tem que refletir a época em que vive.” O álbum que ele lançou em 2023 segue a regra, com uma faixa contra o movimento de Trump.
Os cinco que defendem o palco sem política precisaram falar dela para explicar por quê, e um deles levou o assunto a advogados. Do outro lado, a resposta veio em canção, em turnê e, no caso de Macklemore, num lugar perdido no elenco. Ninguém paga ingresso para ouvir opinião, e mesmo assim os dez deram a sua.
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