Em bate-papo exclusivo com a Mundo Livre FM, em conversa com Gustavo Fonseca, Marcelus relembrou os primeiros anos e as dificuldades do Motorocker, falou sobre as transformações do mercado musical na atualidade e explicou o que o motivou a criar o Curitiba Autoral Lab para ampliar as oportunidades da cena autoral de Curitiba.
Há mais de três décadas, Marcelus dos Santos constrói sua história no rock de Curitiba à frente do Motorocker. Fundada em 1992, a banda atravessou o circuito underground, passou por mais de 150 cidades e dividiu palcos com nomes como Iron Maiden, Deep Purple, Motörhead, Guns N’ Roses e KISS.
Agora, parte dessa experiência está voltada para quem ainda está começando. Em parceria com o Clay Highway, Marcelus criou o Curitiba Autoral Lab, projeto que oferece estrutura profissional para bandas autorais da cidade e região e permite que os grupos fiquem com a receita dos ingressos vendidos.
A iniciativa nasceu de uma constatação simples: muitas das dificuldades que ele enfrentou no início da carreira continuam presentes para novos músicos.
Tudo o que eu senti que me faltou na minha trajetória
A ideia do Curitiba Autoral Lab surgiu a partir das próprias experiências de Marcelus com o Motorocker.
Faltava um palco profissional, um microfone bom para cantar, um amplificador de guitarra, uma bateria profissional, um PA de qualidade e, poxa, ainda que público, né, para assistir. Então tudo o que eu senti que me faltou na minha trajetória, eu resolvi colocar nesse projeto.
A primeira edição mostrou que a demanda existe. Segundo Marcelus, mais de cem bandas procuraram o projeto e 57 concluíram a inscrição.
Para o músico, a procura também evidencia a dimensão da cena autoral curitibana.
Curitiba está muito bem de talentos
Um levantamento realizado por Marcelus em parceria com a economista Sabrina Matos estimou cerca de 500 bandas autorais e aproximadamente 2 mil músicos em Curitiba. Os números são uma estimativa do estudo, não um cadastro oficial.
Mais importante para Marcelus do que a quantidade é a diversidade encontrada pela cidade.
A cena de Curitiba não se restringe a um nicho só. Tem pop rock, tem punk, tem indie, tem metal, tem vários estilos de metal. Curitiba está muito bem de talentos. Tem muito potencial, irmão. O que falta é oportunidade, é espaço.
É justamente essa lacuna que o Lab pretende enfrentar.
Você tinha que ganhar o público na raça
A trajetória do Motorocker começou em uma realidade musical muito diferente da atual.
Sem streaming, redes sociais ou smartphones, conquistar público significava colocar a banda diante de pessoas que muitas vezes nunca tinham ouvido falar dela.
Você tinha que pegar, enfrentar um público que nunca tinha ouvido na vida, nunca tinha ouvido falar. Você tinha que ganhar o público na raça.
Hoje, a internet tornou muito mais fácil fazer uma música chegar a milhares de pessoas. Para Marcelus, porém, alcance digital não substitui a experiência do palco.
Hoje existem certas facilidades para você chegar no ouvido, mas, às vezes, você não chega no coração.
A diferença, segundo ele, está na relação direta estabelecida durante um show.
No palco é diferente. Você olha no olho, você vê a reação, você sente a energia.
A banda autoral não tem nem dinheiro para comprar equipamento
Marcelus também questiona um modelo em que bandas independentes precisam pagar para abrir shows de artistas maiores.
Hoje as bandas pagam para abrir esses shows. A banda autoral não tem nem dinheiro para comprar equipamento deles.
O Motorocker viveu outra realidade. A banda teve a oportunidade de abrir apresentações de grandes artistas e precisou conquistar um público que não havia comprado ingresso para vê-la.
As pessoas querem ver o Iron Maiden, não queriam ver o Motorocker, nem sabiam quem era.
Para Marcelus, esse tipo de experiência pode ser decisivo para uma banda.
Você tinha que entrar ali e mostrar o seu trabalho. E foi muito importante para nós, porque a gente aprendeu a tocar para um público que não estava ali por nossa causa.
Por isso, ele defende que artistas locais tenham mais espaço em grandes eventos.
Eu gostaria de desenhar uma lei, cara, que obrigasse os contratantes da cidade de Curitiba, pelo menos, a contratar uma banda autoral para fazer abertura do show.
Eu sou prova, eu vivo do rock
A própria trajetória é o principal exemplo usado por Marcelus para mostrar que viver de música autoral é possível, embora exija tempo e investimento.
O Motorocker ultrapassou 15 milhões de visualizações somando suas músicas, mas o resultado foi construído ao longo de décadas.
Mas foi uma construção, cara. Não foi do dia para a noite.
Nos primeiros anos, o músico precisou investir recursos próprios e conciliar a banda com outros trabalhos.
Eu já tive que investir muito, tive que trabalhar em outras coisas e bancar o meu microfone, bancar meu equipamento, bancar até as viagens.
Também houve momentos em que tocar sem cachê fazia parte da estratégia para conquistar espaço.
Eu toquei várias vezes de graça também para poder mostrar a banda.
Hoje, Marcelus resume a experiência em uma frase:
Eu sou prova, eu vivo do rock.
Mas faz uma ressalva importante:
Você tem que construir uma história. Tem que ter persistência, tem que acreditar no trabalho.
Primeira coisa, olha a galera que você anda
Quando o assunto são as bandas que estão começando, Marcelus não fala primeiro sobre algoritmos, equipamentos ou divulgação.
Ele fala sobre identidade.
Primeira coisa, olha a galera que você anda. Olha as pessoas que estão perto de você, olha as histórias que você vive. Escreva sobre eles, escreva sobre a tua turma.
A recomendação tem relação direta com a própria maneira como o Motorocker construiu suas músicas: transformar experiências próximas em material para composição.
E há um segundo conselho, ainda mais direto:
E o segundo conselho: não desista.
O sonho de colocar bandas autorais diante de 10 mil pessoas
O Curitiba Autoral Lab está apenas no começo, mas Marcelus já pensa em uma próxima etapa: levar o projeto para um grande festival na Pedreira Paulo Leminski, com um artista nacional e pelo menos seis bandas autorais de Curitiba.
Colocar pelo menos umas seis bandas autorais para tocar num palco para dez mil pessoas.
A ideia nasce também da própria experiência do músico diante de grandes plateias.
É uma emoção incrível. É uma coisa que essas pessoas, dessas bandas, têm que ter um dia.
Depois de mais de 30 anos vivendo o rock, Marcelus quer que outros músicos tenham acesso a experiências que ajudaram a construir sua própria carreira.
Eu quero ver eles lá.
No fim, o Curitiba Autoral Lab representa uma espécie de passagem de bastão: transformar aquilo que Marcelus aprendeu na estrada em estrutura para uma nova geração.
Tudo o que eu senti que me faltou na minha trajetória, eu resolvi colocar nesse projeto.





