A crítica coroou The Queen Is Dead, de 1986. Os dois autores apontam outro, e a pista está numa noite de bebida em 1987. O que houve nela?
Crédito da Foto: Steve Rapport/Getty Images
The Queen Is Dead, de 1986, é o disco de There Is a Light That Never Goes Out, Bigmouth Strikes Again e I Know It’s Over, e a opinião dominante o trata como o auge dos Smiths.
Morrissey e Johnny Marr pensam outra coisa. Os dois apontam o último disco, Strangeways, Here We Come, lançado em 28 de setembro de 1987, com a banda já separada. “É de longe o melhor disco que já fizemos”, disse Morrissey à Melody Maker em 1987.
O curioso é que chegaram lá por caminhos opostos. Para Morrissey, o disco vale porque não rompe com nada e aperfeiçoa as ideias que a banda perseguia desde o início. Marr queria o contrário, e queria romper desde a primeira noite de gravação.
Um rótulo, um teclado e uma noite de bebida
Em 1997, Marr contou à The Guitar Magazine que se sentia encaixotado. Os discos da banda tinham guitarras pesadas, distorcidas, tocadas ao contrário, de slide e acústicas, e mesmo assim, dizia, “toda vez que eu abria um jornal de música, estava escrito ‘Johnny Marr, jingle jangle’”. O jingle jangle, o tilintar de guitarra limpa que a imprensa colava nele, era o rótulo. Para fugir dele, Marr foi buscar referências no Álbum Branco, dos Beatles.
Na primeira noite no estúdio, em março de 1987, Marr bebeu, sentou diante de um teclado e se virou para o produtor, Stephen Street. “Você não gosta quando a gente faz isso”, disse, e começou a tocar. “Você prefere que a gente seja todo tilintante, não é?” A cena vem do Mozipedia, enciclopédia sobre a banda lançada em 2017.
O que ele tocava era o motivo de A Rush and a Push and the Land Is Ours, a faixa que abre o disco e não tem uma guitarra sequer. Marr contou a um fã, numa sessão de perguntas no Instagram em 2020, que tentou passar a primeira faixa sem ninguém notar. “Ninguém percebeu até eu contar para todo mundo”, disse.
O baterista Mike Joyce viu Marr montar o teclado na sala de controle e tocar partes de cordas e de piano, e contou anos depois ao blog Say It With Garage Flowers que levou um susto. “Pensei: espera aí, onde ele aprendeu a fazer isso?”
Um veredito em camas diferentes
Marr, por sua vez, disse à Select, em 1993, que o disco sofria por ser o último, porque o público imaginava uma gravação cheia de brigas que não existiram. “Morrissey e eu achamos que é possivelmente o nosso melhor disco”, afirmou.
No livro Meetings With Morrissey, de 2009, Morrissey confirmou que os dois pensam igual.
Bem, é mesmo. Estamos em total acordo nisso. Dizemos isso com frequência. Ao mesmo tempo. Dormindo. Mas em camas diferentes.





